domingo, 27 de setembro de 2015

Estrangeira


Cito poetas, que se dizem nada.

Me refaço do que não tem nome.
Sou acusada de pequena burguesa,
E de tal crime subverto a ordem.
Deliro de ligeiras ousadias
Me disfarço de pedinte pra assassinar a hipocrisia.
Minha história é meu latifúndio
Partilhei com os camaradas 
Fiz da vida de mulher alienada,
Uma terra produtiva.
No desencontro é que me acerto,
E no encontro é que me transformo.
No teu gesto heroico, faço sátira.
A liberdade de não entrar pra história. 
Sou o oposto, o verso, o incomodo. 
E assim, me orgulho de não calar,
E me engrandeço de não envaidecer.

Minha historia

Nunca fui sedutora, nem dada a jogos.  De verdade esperava a poesia que trouxesse da calçada oposta o grande amor, mas nunca trouxe, ao contrário sempre afastou. Nunca fui boa poetisa, apesar de ter escrito um livro. Acho que se tivesse iniciado a análise nesta época pouparia o mundo de versos tão frágeis e bobos. Não sei tocar minha viola, me falta concentração e determinação. Já pintei telas, também não dei pra essas coisas, minha impressão é que ficou em algum lugar do passado quando o tempo livre me permitia dedicação de horas em função do desenho. Tentei dança do ventre, mas não me dei tão bem, na realidade acredito que não sou graciosa para dança. Fiz jiu jitsu por um ano, cheguei a finalizar uma luta com um cara que treinava antes de mim, mas nem peguei a faixa, vivia cheia de hematomas e aos poucos foi deixando de fazer parte da minha vida. Fui do PT, mas não dei conta de tanta pilantragem. Aos 17 passei no vestibular de nutrição e nem sabia que nutricionista passava dieta, hoje os estudos mais avançados comprovam que dieta engorda, eu não estava não errada afinal. Entrei para o movimento estudantil, mas também não era vanguarda. Fiz curso de massoterapia, mas não me conformei em trabalhar com estética. Dei aula de inglês pra crianças, mas não falo nada. Em 2010, vim morar em SP. Fui divulgadora de uma escola de inglês e não vendi nada. Virei secretaria, mas não sou organizada. Fui web designer, mas o corel ficou com ultrapassado. Compus uma equipe de saúde, era qualidade de vida no trabalho, mas o programa acabou. Entrei para o Nasf, apaixonei por saúde mental, mas não manjo dos paranaues de compensar pacientes e me questiono se o poder de compensar estaria apenas nas mãos do paciente enquanto que nas minhas estaria mostrar novas possibilidades. Fiz o primeiro módulo de francês, mas nada sei, só gosto do som e dos filmes. Construi um partido politico internacional, mas não dei conta de construir a revolução. Sou alguém de boa vontade, coração puro, retirante do interior de Pernambuco. E dessas o inferno tá cheio.



sábado, 24 de janeiro de 2015

Pobreza e obesidade

Olhos distantes e palavras afiadas,
Não há paixão, nunca ouve.
Restos do emaranhado de solidão.
Sertão da alma.
Quem lhe sugou a vida?
As misérias.
Feridas de menina,
restaram as cicatrizes.
Feridas de mulher,
restaram as cicatrizes.
Feridas de mãe,
abertas, repugnantes, incabíveis.
Alardeia a dor, no escambo por afeto.
Não fantasia, não abstraí.
Corpos inocentes lhe restam,
torturas do amor pobre, egoísta.
Toneladas de culpa,
mensurando a obesa realidade.

sábado, 3 de maio de 2014

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Previsível

Poesia não é bula,
não adianta me seguir.
O que suas entranhas fizeram de você?
Responda!
Juntar palavras é uma arte violenta.
Machuca quem faz e quem escuta.
A cada golpe, a cada esquiva,
a palavra certa está lá, à espreita.
Uma vez me disseram que poesia é pros medíocres,
poucas palavras pra um assunto.
Me golpeou em cheio.
Entretanto, sempre é tempo de voltar.
Primeiro round,
Um jogo de cartas, uns sentimentos
Que diferença?
A forma de disputa.
Segundo round,
Futuro, passado
Em quê pensar?
Tudo, menos o próximo best seller de auto ajuda.
Terceiro round
O amor
Ah, esse cruzado de direita...
Nocaute.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Do tamanho real

Os delírios traçaram o caminho,
mas sou pouco, quase nada.
Me sobram e faltam verdades.
Fui cansando de fingir,
e ao ser contrariada, de engolir.
Me afasto para consumir fantasias,
Desanimo, subestimo, enlouqueço.
Uma sensação de fazer tudo errado,
ter surtado, e o que penso sobre mim se desfaz.
Perdi todas as vidas, mal correspondidas.
Já sou o pouco, o resumo, o traço.
E as ideias ainda teimam em ser grandes demais.



domingo, 23 de março de 2014

Suposições

Gostaria de saber o que cada cigarro guardava, quais palavras escondia e de quanta tristeza me protegia. Hoje, com os pulmões adoecidos, percebo a indivisível sensação das dores da mente e do corpo. Sempre pensei que essa união fosse um dia a ser celebrado, mas hoje está cinza e estou de preto. Minha tosse me impede que eu respire, nem sei se eu quero respirar. No meio da noite cócegas na traqueia se transformam em cortes de açoite das pregas vocais. O que separa prazer e dor é a caixa onde foi classificado. Não me importo mais em acordar no meio da noite pra tossir, dormir pouco e levantar com os olhos inchados. Não estou forte, tão pouco fraca. Estou nesse mundo, horas eu queria que não, horas suponho que sim.